Mulheres negras que construíram histórias de resistência e transformação na América Latina e no Caribe

Texto por Erika Campos

Desde 1992, o dia 25 de julho marca, em nosso calendário, a luta das mulheres que compartilham as experiências da diáspora negra em diferentes espaços da América Latina e do Caribe. No Brasil, a data também celebra o Dia Nacional de Tereza de Benguela, homenagem que faz justiça a uma personagem símbolo da resistência.

Vamos voltar à segunda metade do século XVIII, às margens do rio Guaporé, região que hoje pertence ao estado de Mato Grosso. Lá encontramos Tereza de Benguela, mulher negra que assumiu a liderança do Quilombo do Quariterê. Conforme os relatos históricos, foi após a morte de seu companheiro que Tereza passou a conduzir a administração e a organização política do quilombo. À época, o grupo era formado por cerca de cem pessoas, entre negros e indígenas, que lutavam pela liberdade em um contexto ainda marcado pela escravização.

Sua atuação lhe rendeu o título de Rainha Tereza. Sua trajetória nos inspira a pensar em outras realidades frequentemente apagadas pelos livros de História. Sua força de trabalho, inteligência e capacidade de liderança não são incomuns quando comparadas às de nossas mães, avós, tias, vizinhas e tantas outras mulheres negras, cujo trabalho, especialmente o doméstico e o do cuidado, ainda hoje é desvalorizado. Ao mesmo tempo, sua postura política nos lembra que as mulheres negras sempre ocuparam espaços de liderança e organização coletiva.

Um dos efeitos da colonização europeia foi o apagamento da importância da força de trabalho e da cultura negra. O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha revela uma identidade negra que, muitas vezes, foi negada em diferentes países do sul do nosso continente.

Enquanto, no Brasil, nós, mulheres negras, representamos a maioria da população negra da América Latina, em alguns países vizinhos nossa existência sequer foi reconhecida por muito tempo. É o caso da Argentina, que somente em 2010 incluiu, em seu censo demográfico, perguntas sobre a autoidentificação racial de povos originários e afrodescendentes. Na ocasião, menos de 1% da população se declarou negra, o equivalente a cerca de 149 mil pessoas entre mais de 40 milhões de habitantes. Esse dado, entre tantos outros, contrasta profundamente com o passado argentino.

A responsabilidade das coroas espanhola e argentina no comércio de pessoas escravizadas e na exploração da mão de obra negra pode ser percebida pelo contingente populacional negro existente na Argentina. Estima-se que, no início do século XIX, a população negra representasse cerca de 30% dos habitantes do país. Entretanto, políticas de incentivo à imigração europeia e estratégias de branqueamento contribuíram para apagar essa presença da memória nacional.

A história de uma heroína argentina nos ajuda a compreender esse apagamento da presença afro-latino-americana.

María Remedios del Valle nasceu em 1766, em Buenos Aires. Mulher parda e pobre, dedicou-se inicialmente ao cuidado dos feridos durante os conflitos da Independência Argentina. Movida por seu patriotismo, aderiu à luta armada e passou a atuar como liderança na resistência contra a dominação espanhola. Ao lado do marido e dos dois filhos, iniciou, em 1810, uma campanha militar durante a qual participou de importantes batalhas nos territórios de Tucumán e Salta.

Por sua coragem, María Remédios del Valle foi condecorada com o posto de Capitã pelo general Manuel Belgrano, que também a chamou de "Madre de la Patria" - Mãe da Pátria.

Durante a guerra, sofreu a perda do marido e dos dois filhos em combate. Também foi ferida por disparos de armas de fogo, capturada e submetida a castigos físicos e torturas pelas forças realistas. Com o fim do conflito, retornou a Buenos Aires esquecida pelo Estado e viveu em extrema pobreza, chegando a pedir esmolas.

Somente em 1827 recebeu uma pensão pelos serviços prestados ao país. Mesmo após sua morte, o reconhecimento por sua contribuição à história argentina permaneceu muito aquém de sua dedicação à pátria. Atualmente, diversos movimentos sociais reivindicam seu lugar na historiografia oficial. Em sua homenagem, foi instituído, em 2013, o dia 8 de novembro como o Dia Nacional dos Afro-Argentinos e da Cultura Afro.

Apesar da proximidade histórica e geográfica, nem sempre nós, mulheres negras latino-americanas e caribenhas, nos reconhecemos como parte de uma mesma história. É nesse momento que nossas pensadoras nos oferecem novos espelhos para compreender quem somos.

A antropóloga mineira Lélia Gonzalez propôs uma reelaboração da linguagem para resgatar aspectos apagados de nossas origens. Foi ela quem cunhou o conceito de Amefricanidade, valorizando as experiências das populações negras e indígenas das Américas e substituindo uma visão centrada na herança europeia por outra que reconhece as contribuições africanas e ameríndias na formação do continente.

Para Lélia Gonzalez, mulheres negras e indígenas enfrentavam uma discriminação tripla: por raça, por gênero e pela condição de dependência econômica e política dos países latino-americanos em relação ao capitalismo global. A autora defendia que era no ativismo popular que essas mulheres encontravam maior respaldo para suas lutas, muitas vezes ignoradas pelos movimentos feministas tradicionais e pelos partidos políticos.

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi criado em 1992, durante o Primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana. A data representa uma conquista histórica da organização das mulheres negras, que fortaleceram o orgulho de nossas identidades e incentivaram novas gerações a ocupar espaços de luta e transformação social.

Entre essas lideranças está Sueli Carneiro, filósofa, escritora e fundadora do Geledés - Instituto da Mulher Negra. Considerada uma das principais referências do feminismo negro brasileiro, Sueli foi pioneira ao desenvolver análises que articulam gênero, raça e classe para compreender as desigualdades sociais e formular políticas voltadas aos direitos das mulheres negras.

Uma das principais críticas de Sueli Carneiro diz respeito à ausência de mulheres negras nos espaços de poder e de tomada de decisão. É justamente nesse ponto que seu pensamento dialoga com uma das maiores referências da luta política contemporânea no Brasil: Marielle Franco.

Marielle Francisco da Silva nasceu em 27 de julho de 1979, na Maré, conjunto de favelas da cidade do Rio de Janeiro. "Cria da favela", como fazia questão de se apresentar, era socióloga, mulher negra, lésbica, feminista e defensora dos direitos humanos.

Em 2016, foi eleita vereadora do Rio de Janeiro com o slogan "Eu sou porque nós somos". Durante seu mandato, denunciou a violência policial, defendeu os direitos das mulheres, da população negra, das pessoas LGBTQIA+ e dos moradores das periferias, além de lutar pelo fortalecimento dos serviços públicos de saúde, educação e assistência social.

Seu mandato foi interrompido em 14 de março de 2018, quando foi assassinada em um crime que se tornou um marco na história recente do Brasil e provocou forte mobilização nacional e internacional em defesa da democracia e dos direitos humanos.

Seu legado permanece vivo por meio do Instituto Marielle Franco e das inúmeras pessoas, coletivos e movimentos sociais que continuam inspirados por sua trajetória e por sua luta.

O legado de Marielle Franco se soma ao de Tereza de Benguela, María Remedios del Valle, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e de tantas outras mulheres negras que ajudaram - e continuam ajudando - a construir a história da América Latina e do Caribe.

São histórias que resistem ao apagamento e reafirmam a necessidade de seguir lutando pela garantia de direitos, pela proteção de nossos corpos, pelo combate ao racismo e ao sexismo e pela construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e igualitária.

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