O extraordinário que foi silenciado: A Copa Feminina de 71 que tentaram apagar 

Texto por Manuela Pirolo

Assisti ao documentário A Copa de 1971, da Netflix, e fiquei ainda mais indignada com o quanto desconhecemos a verdadeira história das mulheres.

Em 1971, o México sediou uma Copa do Mundo Feminina. Os jogos lotaram os estádios, chegaram a  reunir mais de 110 mil pessoas no Estádio Azteca, recorde de público da história do futebol feminino, superando, inclusive, o maior público da Copa do Mundo Masculina realizada um ano antes, também no México. E estamos falando da histórica Copa de 70, considerada uma das mais marcantes de todos os tempos, vencida pelo Brasil de Pelé e o lendário Esquadrão.

Por décadas, em muitos países, mulheres foram proibidas de jogar futebol. Os argumentos eram os mais diversos: que o esporte era violento demais para o nosso corpo, que poderia prejudicar nossa fertilidade, que era incompatível com a "delicadeza" esperada de nós ou que simplesmente não tínhamos capacidade física ou técnica para praticá-lo.

Essas ideias refletiam uma visão muito maior sobre o papel das mulheres na sociedade. Durante séculos, reforçou-se o estereótipo de que existíamos apenas para o casamento, o trabalho doméstico e a maternidade, de que não éramos sujeitos de direitos plenos e que nossa inteligência era inferior à dos homens. O futebol era apenas mais um dos muitos espaços que nos foram negados.

No Brasil, o futebol feminino foi oficialmente proibido entre 1941 e 1979. E, por esse motivo, o país não foi representado no torneio de 71.

Segundo os relatos apresentados no documentário, houve resistência e diversas tentativas de deslegitimar o campeonato antes, durante e depois de sua realização. Até hoje, ele nunca foi reconhecido oficialmente pela FIFA.

O mais triste é que, depois de viverem um momento histórico diante de estádios lotados, muitas daquelas atletas voltaram para seus países sem apoio para continuar jogando. Impedidas de treinar e disputar campeonatos, sequer puderam seguir suas carreiras.

O apagamento foi tão profundo que, durante décadas, e ainda hoje, a maioria das pessoas acredita que a Copa do Mundo Feminina de 1991 foi a primeira da história. Até grandes nomes do futebol feminino nunca tinham ouvido falar da Copa de 1971 antes das gravações do documentário.

É preciso reconhecer que aquelas mulheres fizeram algo extraordinário.

Entraram em campo quando lhes disseram que não podiam. Jogaram quando insistiam que não eram capazes. Ocuparam um espaço que repetiam não lhes pertencer. Lotaram estádios, emocionaram multidões e escreveram um capítulo da história que tentaram apagar.

Por isso, A Copa de 1971 é muito mais do que um documentário sobre futebol. É um resgate da memória de mulheres que fizeram história, mas tiveram suas conquistas silenciadas.

Vale muito assistir e compartilhar. Principalmente agora, quando temos a oportunidade de ampliar nosso olhar sobre o futebol feminino e fortalecer ainda mais nossa torcida para a Copa do Mundo do próximo ano.

Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, o Brasil será o primeiro país da América do Sul a sediar uma Copa do Mundo Feminina da FIFA. As partidas acontecerão no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e Salvador, reunindo 32 seleções de todo o mundo.

Valorizar o futebol feminino vai muito além do esporte. É reconhecer a luta de mulheres que enfrentam preconceitos, desafiam proibições e resistem a um sistema que atua constantemente contra nós. É muito importante resgatar a história de mulheres que tornaram possível que outras pudessem sonhar, continuar lutando e conquistar espaços que sempre nos foram de direito.

Afinal, nunca é só futebol, né?

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