No Brasil, pobreza menstrual atinge quase três vezes mais meninas negras
Texto por: Nayara Nascimento
A dignidade menstrual enfrenta o desafio de não ser encarada como uma pauta de importância secundária. A falta de educação sexual, o baixo acesso a absorventes e a escassez de saneamento básico são problemas sociais graves, que afetam, principalmente, meninas e mulheres negras.
Como a pobreza menstrual impacta diariamente
A carência de absorvente é o elemento mais perceptível da pobreza menstrual, mas esse problema também envolve as falhas de infraestrutura e a pouca informação sobre o assunto, que afetam fortemente meninas, mulheres e pessoas que menstruam.
O relatório “Pobreza menstrual no Brasil, desigualdades e violações de direitos”, elaborado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), é a principal fonte de dados sobre o tema. O documento faz um alerta para uma série de violações aos direitos das meninas, mulheres e pessoas que menstruam.
Mais de 4 milhões de meninas vivenciam a escassez de instalações básicas nas escolas e quase 200 mil estão totalmente privadas de condições mínimas para cuidar da menstruação no ambiente escolar. Segundo a pesquisa, mais de 3,5 milhões delas estudam em escolas que não disponibilizam sabão para lavar as mãos após o uso do banheiro, sendo que 62,6% dessas estudantes são pretas e pardas.
O documento também verifica a situação de pobreza menstrual em casa: meninas negras têm quase 3 vezes mais chance de não possuir acesso a banheiros, exclusivos para moradores, disponíveis nos domicílios, terrenos e propriedades onde residem. Outro dado alarmante é que mais de 570 mil meninas não têm qualquer acesso a água canalizada em casa e nem no terreno em que vivem.
O estigma da menstruação é uma construção social
Apesar da longeva atuação dos movimentos feministas em prol da educação sexual e dos direitos reprodutivos, que levantou discussões e impulsionou políticas públicas importantes, a menstruação continua sendo um tabu. Na sociedade brasileira, fundamentada no patriarcalismo e no conservadorismo, a saúde das meninas e mulheres tende a ser tratada como assunto privado, sigiloso, que não deve alcançar o âmbito público. O resultado é a manutenção de uma estrutura social que ainda invisibiliza e silencia a saúde da mulher.
Frequentemente, a misoginia utiliza a menstruação para ridicularizar, desqualificar, agredir e humilhar mulheres e pessoas que menstruam. Essas condutas estão presentes no trabalho, nos ambientes de educação formal, na política e, inclusive, são praticadas por personalidades públicas de forte influência, dificultando o enfrentamento de estereótipos.
Em se tratando das meninas e mulheres negras, os estigmas são ainda maiores. Historicamente, uma das violências do racismo científico se deu ao associar pessoas negras à falta de higiene, e isso tem consequências profundas até os dias atuais. As meninas e mulheres negras sofrem mais os impactos dos estereótipos da menstruação, o silenciamento imposto e a agressão provocada pelo racismo e pela misoginia. Também é importante chamar a atenção para as meninas e mulheres indígenas, que precisam de mais visibilidade nas discussões.
A pobreza menstrual pode, ainda, reverberar na saúde mental de meninas, mulheres e pessoas que menstruam. O medo de exposição involuntária da menstruação e de ser humilhada por isso é capaz de desencadear episódios de ansiedade, influenciar na baixa autoestima, no sentimento de vergonha, repulsa por si mesma, autodesvalorização e isolamento social. Além disso, há prejuízo ao desenvolvimento escolar das meninas que faltam nos dias em que estão menstruadas, por exemplo, ou financeiro das mulheres que deixam de ir ao trabalho por falta de absorvente.
É preciso tirar a menstruação do sigilo
O 28 de maio marca o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, duas datas oportunas para discutir a pobreza menstrual, conscientizar sobre a importância de desestigmatizar a menstruação e reivindicar por mais ações e políticas públicas.
A Toda Cidadã acredita no potencial da educação sexual para que meninas, mulheres e pessoas que menstruam compreendam seus direitos à dignidade menstrual em todos os aspectos — desde a aquisição de recursos, a garantia de saneamento básico e o acesso à informação.
A dignidade menstrual precisa ser um compromisso de toda a sociedade, por isso, é fundamental que meninos e homens também sejam incluídos nos debates e ações com foco na educação sexual e não reproduzam estereótipos acerca da menstruação. Discutir o assunto sob o ângulo do racismo também se faz necessário, já que meninas e mulheres negras são alvo de violências motivadas pelo desprezo à raça, aliada ao gênero.
No Brasil, o Programa Dignidade Menstrual, do Governo Federal, distribui gratuitamente absorventes a meninas, mulheres e pessoas que menstruam, desde que se enquadrem nos critérios de vulnerabilidade social. Por outro lado, campanhas de educação sexual que informem a população precisam ser realizadas para que alcance um público maior e cause efetivas mudanças sociais.
A Toda Cidadã atua com o propósito de que a dignidade menstrual não seja um privilégio de alguns, mas uma realidade para todas!