Política sem afeto não faz sentido, com Janaína Oliveira

Esta entrevista faz parte do nosso podcast, e você pode assistir e ouvir a conversa completa no YouTube e no Spotify. Aqui no blog, trazemos ela também por escrito, na íntegra, pra deixar tudo documentado e acessível pra quem prefere ler, pra quem quer voltar num trecho específico, e pra que essa conversa fique registrada e disponível pra sempre.

À frente da mesa estiveram Barbara Martins, diretora de Incidência Política da Toda Cidadã, e Ana Laura Menegat, copywriter da organização. Foram elas que conduziram o papo e provocaram as questões.

Nossa convidada é Janaína Oliveira, secretária nacional LGBT do PT, integrante da Coordenação Nacional da Rede Afro LGBT e da mesa diretora do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBT do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. Pós-graduada em Criminologia, Janaína construiu sua trajetória no Pará, no movimento estudantil e na juventude negra, e hoje é uma das principais referências na luta por direitos da população negra e LGBTQIA+ no país.

A conversa parte da sua história de vida, de como demorou a se entender como mulher negra, lésbica e amazônida, até chegar aos espaços de poder que hoje ocupa. A partir daí, Janaína fala sobre a centralidade das lutas interseccionais, o peso e a força de ser do território amazônico, e defende uma ideia que atravessa toda a entrevista: a política precisa ser feita com afeto e cuidado, porque é o afeto que sustenta a resistência. Falamos também dos impactos da pandemia sobre as populações mais vulneráveis, dos limites da mobilização digital e da importância de ocupar as ruas, das lacunas entre política de governo e política de Estado, e da urgência de dados que enxerguem de verdade as pessoas trans.

É um papo sobre cidadania, memória e por que se organizar coletivamente muda a vida, tanto a nossa quanto a de quem a gente nem conhece. Sem mais delongas, é hora de puxar uma cadeira e sentar com a gente nessa mesa. A conversa começa agora.

Barbara Martins: Oiê! Eu sou a Bárbara, diretora de incidência aqui na organização Toda Cidadã.

Ana Laura: E eu sou a Ana Laura, sou copywriter na Toda Cidadã.

Barbara Martins: E hoje estamos com a Janaína Oliveira, que é secretária nacional LGBT do PT, da Coordenação Nacional da Rede Afro LGBT e da mesa diretora do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBT do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. E, além disso, a diva é pós-graduada em Criminologia. Tudo bem, Janaína?

Janaína Oliveira: Boa tarde. Oi, Bárbara. Oi, Ana. Obrigada pelo espaço e pela oportunidade da gente poder dialogar um pouco, né? Já conheço a Bárbara há bastante tempo, conhecendo a Ana agora, estamos juntos.

Barbara Martins: É isso. Obrigada por aceitar esse convite, nos receber também, estar aqui nesse espaço e falando hoje sobre cidadania, desinformação e mulheres, a gente queria começar com você contando um pouco da como que você se viu nesse espaço e como você se viu como um corpo político e a sua trajetória desde quando você era menininha para depois ser adolescente, jovem e hoje como essa referência sendo secretária nacional LGBT do PT. Então, trazendo um pouco aí da sua posição nesse grupo político enquanto uma mulher negra LGBT.

Janaína Oliveira: E é bem interessante porque eu demorei muito para me entender como mulher negra LGBTQIA+. Eu comecei no movimento estudantil, e comecei a minha trajetória negando a importância da organização partidária. Então, eu me chamava de apolítica, tradicional, essa ideia de que você está acima de tudo e de todos e que é um sistema que é corrompido. Então, é bem interessante essa contradição. Eu consegui entender melhor a minha sexualidade e a minha identidade com 19 anos. E muito nessa luta da juventude negra. Então, a juventude negra vai me trazer esse espaço de acolhimento junto com o movimento estudantil. Então, é a partir daí que eu começo a entender, pô, eu não sou só uma estudante, né, mas uma mulher negra, uma LGBTQIA+, uma sapatão, uma lésbica, eu consigo entender quem eu sou e, a partir daí, construir a minha trajetória. Eu começo a militância na organização que eu estou até hoje, que é a Rede Afro LGBT, que é uma organização de pessoas negras e LGBTQIA+, que transversalizam o debate. E a gente começa também nessa pegada da Rede Afro, que se torna um espaço importante de organização. Eu também passo a me organizar num partido político em 2007. Aí surge o PT como esse espaço de organização, a juventude do PT. Como um espaço de construção da juventude negra. Depois disso é que eu passo a ter uma interação mais de território nacional. Eu atuava muito fortemente no Pará e participei de algumas agendas nacionais, mas é a partir do Conselho Nacional que eu dou o primeiro start de militância nacional e vou entendendo a organização. E isso vai me construindo uma trajetória de vida. Acho que toda essa diversidade de oportunidades que eu tive, de tomar conhecimento, de ter entendimento do que eu sou, de quem eu sou, foi fundamental. Tanto que na juventude do PT eu faço uma formação junto com a Frederic Hebert, né? Então a gente fez uma formação da juventude da América Latina e Caribenha no Chile. E aí foi uma experiência maravilhosa. Foram 15 dias de troca de experiência com várias juventudes, mas foi também, foi a minha primeira viagem de avião e de avião com a viagem internacional. Então, uma experiência de todas as magnitudes, mas a troca de vivência desse espaço de organização e você perceber que você não está sozinha. E que bom que eu estava muito errada, que bom que eu me dei a oportunidade de me organizar no partido político. Estou secretária, mas estou secretária diante de um processo de construção unitária que veio muito antes de mim. Então, eu agradeço muito essas pessoas que me proporcionaram momentos fundamentais na vida pra eu ser quem eu sou. Senão, talvez eu, infelizmente, fosse alguém. E pra quem tá aí, não vacila não, é importante se organizar nos espaços de poder. É muito importante a gente tá organizado, a gente ocupar os espaços, porque essa mudança não é só pra você, mas é pra outras pessoas. Saber que a gente milita, luta por outras pessoas, A gente nem sabe quem tá aí do outro lado, mas que a gente tem certeza que essas pessoas têm a mesma vontade que a nossa, que é ver todo mundo bem, todo mundo forte, fortalecido, num país mais inclusivo, que respeite as identidades, as etnias, as orientações sexuais, as crenças. Não é só uma utopia, é uma luta diária. E eu reconheço que o Partido dos Trabalhadores me fez ver muito longe, muito mais do que eu imaginei que eu poderia ver.

Ana Laura: Muito, muito bom te ouvir falar, falar desses encontros, dos afetos que acontecem também no processo. E você começou falando justamente sobre esse momento de se entender uma mulher negra, lésbica. E aí eu queria te perguntar, quando a gente olha para essas interseccionalidades, que é um tema que a gente tem trabalhado agora um pouco mais na Toda Cidadã, que são esses marcadores sociais que compõem quem a gente é. E eu queria entender para você como você vê a necessidade e a importância das lutas e das pautas serem trabalhadas de forma coletiva, seja o movimento negro, o movimento LGBT, o movimento feminista, o movimento dos trabalhadores, como é que essas pautas estão interligadas e como que a gente deveria atuar de uma forma conjunta, não só na política institucional, mas na política que é feita na rua também.

Janaína Oliveira: Elas são centrais. Eu quero dizer o seguinte, na Constituinte de 88 a gente teve uma... A grande. Dois grandes parceiros nessa caminhada da luta do reconhecimento da população LGBTQIA+. A Benedita da Silva, que pra mim é uma mulher negra de grande referência, que eu sigo muito e que eu fico muito feliz de saber que a gente tá nessa mesma caminhada, companheiro Genuíno também, como um espaço importante e organizativo que teve ali nessa defesa. E naquele momento, a gente não tinha uma voz nossa, das LGBTQIA+, que pudessem, na construção dessa Constituição, dizer, olha, nós estamos aqui, nós merecemos ser reconhecidos e ser reconhecidas, temos direitos. E você ter duas pessoas que não são LGBTQIA+, e entender a necessidade de, não, a gente tem que subir nessa tribuna e também fazer a defesa e o reconhecimento. E esse processo de construção e de caminhada conjunta, ela já é histórica, pelo menos para a organização brasileira, de unidade. Então, você tem uma marcha das mulheres e você não tem só as mulheres, mas você tem todos aqueles que lutam diariamente por um mundo melhor e naquela luta contra a violência contra a mulher. Na marcha LGBTQIA+, na caminhada do movimento negro. Então, você vai vendo uma transversalidade de ideias, de comportamento, de opiniões, diversas que anseiam pela mesma inclusão. E a entender isso não foi uma tarefa fácil, viu? Porque você se entender negra quando você tem uma infância, uma adolescência e o início de uma fase adulta que não tem ninguém pra te dizer sobre isso, porque o processo de preconceito e de racismo é tão perverso que você tem uma geração após a outra reproduzindo processos. “Ah, não te reconhece como negra, não. No máximo uma morena”. “Ah, é... Te arruma, te ajeita, te porta como mulher, parecendo um homem”. Então, você vai lidando com esse dia a dia o tempo todo na mente, te reforçando uma ideia de que você tem que ter um padrão de comportamento, que é o sistema patriarcal, ele é sexista, ele é machista. Então, ele vai te empurrando para um abismo. Que a importância das organizações sociais salva muitas vidas de você dizer, não, olha, você não é só isso, você é muito mais que isso. Então, aqui tem um espaço que você vai se encontrar nessa construção, nesse espaço social, etc. E é tão simbólico, tão simbólico esse processo de organização, eu tava falando mais cedo, mas eu vou trazer aqui, eu tive uma agenda da ONU em 2013. E eu era a única na mesa que era da sociedade civil. Todos os demais dos outros países eram representantes do governo. E eu fui falar sobre avanços e retrocessos da política pública brasileira para a população LGBTQIA+. E eu era a última a falar. Então, óbvio, você tinha um público, os países nos acompanhando no diálogo. E, de repente, algumas pessoas começaram a se levantar. Já haviam me alertado que isso podia acontecer, de ter países que não reconhecem os direitos da população LGBTQIA+. E aquilo, durante os cinco primeiros minutos, foi um impacto pra mim. E foi bem interessante ver que outras pessoas de outros países que não falam a mesma língua, mas que estão ali em alguma organização de luta, seja negra, seja de mulheres, prestaram solidariedade, colocaram a mão no ombro e disseram assim, você não está sozinha, vamos. Então, isso é fundamental. Acho que o que incomoda tanto os setores conservadores, o que incomoda tanto a direita a ponto de não ter hoje mais vergonha de ser o que é, de dizer o que pensa, é justamente essa organização unitária. A gente tem divergências, diferenças de ideia, de concepção, nada é um mar de rosas, mas essa transversalidade das pautas, elas são a tua transversalidade de vida. Eu não vou daqui, ali na esquina, deixando de ser mulher negra, deixando de ser lésbica, deixando de ser da região amazônica desse país, né? E que a gente fala tanto de custo amazônico e tanta gente, às vezes, não escuta o que a gente tá dizendo, né? A dificuldade de você sair do norte pra poder se organizar. Olha só, pra eu conseguir transitar pelo país, eu precisei sair do meu território, que é o Pará, pra vir morar em Brasília. Para ter um espaço de acesso mais rápido e mais fácil e menos custoso para poder atuar. E claro, fica uma série de companheiras e companheiras lá na resistência e na luta. Então, não dá para a gente não dizer a importância desse aspecto. E aí você ataca as pessoas na individualidade e na coletividade pra tentar desmontar essa organização. A gente vive um processo de golpe, a gente vive um processo de fascismo, de discursos criminosos disfarçados de discursos religiosos durante o governo bolsonarista e esse ataque sistemático pra desmontar a política e nesse desmonte da política você tem um segmento que tá ali muito mais vulnerável que foi a população LGBTQIA+.

Janaína Oliveira: Então, a única coisa que o Bolsonaro não desmontou foi o kit gay, porque o kit gay nunca existiu, mas ele foi usado. E aí eu lembro que quando ele desfez o Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, o Conselho Nacional de Direitos Humanos criou uma comissão onde tivesse um espaço para a população LGBTQIA+, levar as violações, debater política pública, ser um espaço de resistência. Então essa unidade de construção política é o que fortalece, na minha opinião, é o que nos fortalece, é o que faz esses setores nos atacarem tão diariamente e criminalizar o movimento social. Criminalizar os nossos corpos, as nossas identidades como uma forma de construir no imaginário daquele que não tá organizado e que ainda não conseguiu se encontrar pra se organizar, de que essas pessoas, que nós, não essas pessoas, mas que nós somos esquerdistas, queremos destruir família brasileira, queremos... E na verdade não é isso, a gente quer desconstruir um sistema, que é um sistema que oprime a identidade, que oprime orientações sexuais, que oprime as etnias, os povos, que oprime mulheres, que oprima crianças e adolescentes. Então, são uma série de violências que vão... Hoje o Brasil está, infelizmente, numa polarização necessária, porque se a gente não resistir a eles, eles não terão menor pudor, como não tem hoje, de continuar defendendo o nosso extermínio, e nos criminalizar, até tentar transformar o movimento social, o movimento sindicalista em terrorista. Então, infelizmente, são pessoas revestidas através das suas religiões, se escondendo atrás de um falso modelo de família para trazer essas realidades. Então, não tem como falar de política sem falar do que vai nos fazer encontrar no final. Independente de onde, de que região a gente esteja, que idade nós vamos ter, né? Mas as necessidades são as mesmas. Então, eu sempre louvo muitos movimentos sociais e agradeço muito quem sempre teve na luta aí, nessa resistência, por permitir que outras gerações pudessem continuar também resistindo junto. Mas eu ainda tenho esperança de um dia outras gerações não tenham que passar por isso. Que preconceito não seja mais permitido, que discurso violento não seja mais concebido como liberdade de expressão, etc. Mas, enquanto isso não acontece, a gente está aqui na resistência, na luta, sem medo de ser feliz.

Barbara Martins: Não, e que bom que a gente tem você nessa resistência, tem você nessa luta e que bom que você estava lá em 2013 enfrentando todos aqueles representantes dos governos de diversos países e você trouxe a sua fala. É uma pena que eles se levantaram, porque é uma pena para o mundo, uma pena para a sociedade e que bom que você se manteve firme ali e continuou a sua caminhada até agora. Eu fico muito feliz de ouvir isso de você. E trazendo um pouco até desse aspecto da interseccionalidade que você falou, eu queria que você falasse um pouquinho mais também da interseccionalidade do território. Você é uma mulher do Pará. Um dos maiores estados do Brasil, um estado que é diverso étnicamente, diverso territorialmente, e tem uma trajetória também histórica de violência com ativistas de direitos humanos. Então, eu queria também... Que você trouxesse um pouco da sua vivência nesse território e da sua experiência sendo uma ativista, sendo uma mulher que resistiu e esteve naquele espaço também se afirmando como um corpo político.

Janaína Oliveira: A região amazônica, ela tem, você falou mesmo, ela tem uma diversidade maravilhosa, uma biodiversidade maravilhosa. Mas ela tem, infelizmente, a região é vulnerável em uma série de aspectos. Não só na perseguição e na morte de pessoas que são defensoras dos direitos humanos, mas, inclusive, dos processos de extermínio que tem. Eu militei muito tempo no Pará e lembro de um processo muito... Me marcou muito, né? Marcou porque a gente, como militante, tava lá fazendo a cobrança do Estado, cobrando o resultado, satisfação com o extermínio na terra firme de vários moradores que foram executados pela milícia e... E que a gente recebeu muitas comissões de direitos humanos, inclusive do governo brasileiro, para fazer relatos do que aconteceu naquele dia, e a gente observar, e não aconteceu comigo, mas aconteceu com outros companheiros, que precisaram ser protegidos para se manterem vivos, porque o filmaram, porque tinham mais riquezas de detalhes sobre o ocorrido, e isso eu estou falando num território metropolitano de Belém. É óbvio que residir na região, para além do custo amazônico, da dificuldade de transporte, de deslocamento, o tempo que você tem para transitar de um espaço ao outro, você tem uma série de violações ali que vão se dando desde as florestas, na água, no rio. Então, você tem setores que se organizam frente no campo do meio ambiente, então, da exploração de terra indevida. Você tem a população indígena que resiste diante de um sistema que o tempo todo tenta ocupar as terras. Você tem um sistema que o tempo todo e tem, infelizmente, crescido na região, que é ocupação de territórios por organizações de tráfico, etc. Mas ela não é... A experiência no Pará, mesmo com esses detalhamentos, esses detalhes que são dificultados em outros estados do território, acho que tem um aspecto que foi fundamental. A gente sentiu onde a gente está, sentiu o chão de onde a gente está. O território de onde a gente está. Então, militar ao lado de quem está na periferia, militar ao lado de quem está nos territórios indígenas, militar ao lado quem está nas áreas ribeirinhas, militar ao lado dos companheiros e companheiras que estão no campo da defesa de direitos humanos, ela traz uma força, eu não sei explicar, é muito diferente, gente, a região, se você é da região amazônica, tem uma força, uma garra, uma vontade de resistência, de luta, de ocupação, pelo reconhecimento do estilo de terra, os quilombolas se organizam com muita resistência, e diante de todo um sistema que o tempo todo não quer reconhecer o direito desses povos, dessas etnias, que o tempo todo tenta tirar o seu lugar. Não tem como não fazer uma crítica às grandes obras, mas grandes obras que tenham o interesse do centro-sul do país e você ter que tirar a comunidade do seu território pra poder atender, pra fazer mais hidrelétrica, né? Então, pra você comprometer todo um sistema pra atender um outro sistema que pouco retorna. O Pará é um dos estados que têm energia mais cara do país. Então, mas mesmo diante disso, quando eu saio daqui, que eu vou para Belém, que eu sempre vou em Belém, então, eu chego lá e você encontrar os companheiros e companheiras e você militar, e você se vê no outro… Nossa, eu sempre volto muito bem, eu volto muito bem, vou no terreiro, sabe, vou visitar, vamos dialogar, vamos para encontros, eu chego lá, não vou para passeio, eu chego lá para fazer atividade, eu vou pra reunião, para ato, e isso traz uma experiência única, né, que foi no Pará que eu construí minha trajetória e minha vida, né? Foi o Pará que me transformou, né? Esse território amazônico que me deu essa força, essa garra pra ir pra outros espaços e ir pra outros cantos com a segurança e a vontade de... Se eu estiver bem, se eu não estiver bem, eu sempre vou, eu volto para o Pará com a mesma alegria e satisfação para comer o açaí de verdade, para comer a farinha da nossa terra.

Barbara Martins: É isso.

Janaína Oliveira: Mas, infelizmente, as execuções dos defensores de direitos humanos continuam cada vez mais perversos, mais intensos. E uma exploração desenfreada, sem controle. Não é um exercício fácil, mas tem muita coisa boa também. Quem não conheceu o Belém, quem não conheceu o Pará, tem que conhecer.

Barbara Martins: Tem que ir.

Janaína Oliveira: Melhor comida do mundo, um povo amoroso, acolhedor, que fala pelos cotovelos, que fala pelos cotovelos, mas que é bom que a gente faz a reunião lá no Pará é assim, é antes e depois da chuva. Todo mundo já sabe o horário que tem que se organizar pros atos, pras atividades, pras reuniões e pra resistência.

Ana Laura: E é muito bonito ouvir você falando assim, sabe, com tanto afeto, com tanta energia, até o tom da voz muda quando você vai falar sobre esses momentos de reunião, sobre voltar pra sua terra. Eu acho que são essas questões das raízes fortes, né, que resistem a todas essas questões complexas que acontecem, né. É muito triste ver a região amazônica, uma região tão rica de natureza, de cultura, de vivências, de identidades, né, ter todos esses contrastes difíceis de lidar, né. Mas eu queria me atentar um pouco mais a essa beleza assim de tudo que você falou e eu fiquei pensando muito lembrei de uma amiga minha Jessika Rabello é pedagoga militante também uma mulher negra e sapatão que ela fala muito sobre a importância da gente fazer uma política afetiva Porque o processo de luta é difícil, né? Se a gente pudesse viver sem estar lutando o tempo inteiro seria muito bom, era o ideal, né? Mas já que a gente vive na sociedade que a gente está inserida, a luta muitas vezes não é uma escolha, né? Que nem você falou, onde você vai, o seu corpo também chega, né? A sua cor chega, a sua identidade chega, então às vezes a luta não tem como escolher lutar ou não. E aí eu queria entender pra você como é que é a importância desses afetos que se fazem no caminho, né? Como é que a questão das relações, das convivências com as pessoas, dessa formação de laços e de contato humano mesmo com as pessoas nesse processo de luta, de militância, do fazer a política com afeto, como que isso atravessou a sua vida e como é que você entende que isso é importante?

Janaína Oliveira: Eu trouxe isso muito de berço, né? Trouxe muito isso da minha família. Então, quando eu milito com os companheiros e companheiras que eu milito mais diariamente, que eu tenho mais contato... Eu conheço a família, conheço a mãe, conheço o pai, a tia, a vó, quem criou o companheiro. Eu quero olhar para o outro sabendo quem é a pessoa. Se eu não tiver esse cuidado com a pessoa que está do meu lado, eu não vou ter esse cuidado comigo, porque eu não vou ter a mesma... O mesmo retorno no trato. É muito difícil você militar com um mundo que tá o tempo todo tentando te exterminar. Então, é óbvio, isso te estressa, porque você vê, pô, você tá comendo e você olha pro lado e vê alguém que tá revirando o lixo, procurando o que comer e você pensa assim, poxa, cara, E a gente se sente mal, né? Poxa, eu tô aqui, eu tô tendo o privilégio de poder ter esse prato, de onde aquela pessoa tá, e onde é que tá a política pra dar assistência àquela pessoa. Porra, e a gente tem tanto programa, tanta ação, mas por que que aqui no Distrito Federal ou em outro estado esses programas não estão sendo aplicados? Então, você vai se provocando, mas você precisa se provocar sabendo quem é teu companheiro e tua companheira do lado. E sabe o que é difícil mesmo na militância, na minha opinião? É quando você precisa ser mais incisiva, grosseira, ríspida, pra que você tenha os companheiros nos ouvidos. Ou quando eles acham que eles têm que explicar nossa fala.

Barbara Martins: Características que são, né, masculinas e a gente tem que incorporar pra ter o respeito e ser escutadas, né?

Janaína Oliveira: Isso me incomoda muito, eu não gosto de fazer debate, não gosto de estar nos espaços, não gosto de fazer debate política se eu não conseguir ver o outro de forma igual e ter tranquilidade, eu não quero alguém explicando o que eu quis dizer. O que eu queria dizer, eu disse, eu não preciso de uma auto, sabe, de letrinhas legendadas na ponta, ela quis dizer isso. Sabe, isso, isso atrapalha o método da gente se ver e se dialogar, porque se alguém me trata assim, eu já fico assim, não, peraí. Já vamos ter uma dificuldade de fazer diálogo. Então, essa sensibilidade que, na minha opinião, o movimento precisa ter, todos nós precisamos ter, não é um exercício fácil. Gente, eu não sou nenhuma santa no processo, né? Não é um exercício fácil. Mas a maturidade foi me fazendo perceber o seguinte. Poxa, todas as minhas caminhadas, teve alguém importante na minha história. Alguém que me estendeu a mão, alguém que me chamou no canto e disse assim, ó, pô, legal, importante você, mas esse caminho que você escolheu pra fazer, a fala, na minha opinião, foi uma fala equivocada. Mas não no sentido de criticar porque quer dizer, ó, porque precisa avaliar quem tá. Pô, eu aprendi no movimento negro o chamado constrangimento ético, cara. Então, você constrangia o outro com ética. Então, você começa a entender, poxa, encontrei caminhos que puderam me trazer elementos que me olhassem, que me fizessem olhar para as pessoas de uma outra forma. Então, é importante você fazer reunião? É importante pra caramba você fazer reunião, você debater, fazer análise, pensar estratégia. Mas, porra, é muito bom você terminar e dizer assim, fomo ali? Vamo ali jantar, vamo ali beber, e cê tem um momento de conversar com as pessoas, de ouvir, de perguntar: cê tá bem? Porque a gente se cobra tanto pra gente fazer a luta e a militância, a gente tá o tempo todo, ó, não pode esquecer tal reunião, pô, temos que produzir tal texto, porra, temos que fazer aquela arte pra gente poder rodar e chamar todo mundo pra agenda. Mas a gente tem pouco momento pra gente olhar pra alguém e perguntar: Ana, cê tá bem? Bárbara, cê tá bem? Então assim, como é que cê tá? E a gente precisa ser... E se não tiver ninguém pra te perguntar como você tá, se pergunte como eu estou. Porque isso vai nos ajudar a fortalecer. Quem tá do outro lado, com discurso de ódio, não tem nada a perder. Quem tem discurso de ódio sequer se ama. Uma pessoa que se ama não vai desejar o mal do outro. Então, a gente tá trabalhando em setores e enfrentando setores que o tempo todo tão ali, sabe, jogando ódio, destilando veneno, estimulando violência, e muito mais violência, e o tempo todo a gente tá aqui lutando contra tudo isso, e você tá ali enfrentando, às vezes recebendo ataque, mensagem, e às vezes se sentindo sozinho no processo. A maturidade me fez entender, pô, eu não quero ser essa pessoa que não pergunta pra alguém se você tá bem. Porque eu não posso começar a luta sem dar um bom dia, sem perguntar se a pessoa tá bem, sem olhar no olho e ver como aquela pessoa tá e achar que tá tudo bem. Não, tamo aqui, vamo lá, toma papel, vamo... Não quero. Esse tipo de luta eu já não topo mais, não. Porque a gente já tem um sistema pra tá o tempo todo nos maltratando. Eu defendo muito o afeto porque eu fui acolhida com afeto. Gente, eu era contra partido político, pô. Pô, cê imagina se aturar alguém que fica fazendo discurso, porque os partidos são o problema do país, e depois você dizer, não, mas coopera não é não, e conversar contigo e dialogar contigo pra te abrir os olhos, não é. Cê tá errada, a gente tem que tá nesses espaços pra conseguir fazer as transformações. Não é porque é o PT que é mil maravilhas, ao contrário, tem suas dificuldades, suas limitações, e a gente tem que trabalhar pra mudar isso. Tem uns dias que dá ódio, dá ódio. Mas a maioria dos dias é o seguinte, cara, se o barbudinho tá lá segurando a onda, eu tenho que segurar a onda aqui também. Então política sem afeto, sem amor, sem projeção do cuidado, não faz sentido. Então, não adianta pedir para ter creche em evento, tem que ter creche para que as mulheres possam participar do debate. O importante é isso, mas é importante saber como aquela companheira está, se ela conseguiu se alimentar, como ela está vendo um determinado tema. Às vezes, a gente vai para a mesa, fala, fala, fala... Que é outra coisa que eu não gosto. Pô, você vai pra uma mesa, senta e escuta. Você falou, senta pra escutar. É importante porque vai ter dali outras coisas que vão te fazer analisar. Espaço de poder sem afeto não é um espaço real de construção política. Se você não tiver disposta a reconhecer os erros, mudar, porque a gente também erra, né? Reconhecer os erros, mudar, refazer, reconstruir, ter outras concepções, a gente... Os fascistas, como eu disse, se organizam fácil, né? Pra falar, pra destilar ódio.

Ana Laura: E fazer a luta adoecida também é muito mais sofrido, né?

Janaína Oliveira: Sem carinho. Pras mulheres, isso é muito custoso, porque você tem a tarefa de cuidar de você, de cuidar do outro, de cuidar da família, de cuidar da casa, de cuidar de um emprego. O tempo todo... E a sociedade te cobrando “você é feminista, você é contra o homem, você é isso, você é aquilo”. Então, se não tiver um cuidado afetuoso com você mesmo, você não tem como ajudar o próximo. Porque, pra mim, isso é ser cristão, né? Um cuidado próximo, um cuidado próximo sem preconceito, sem medo, sem julgamento e acolhendo as pessoas como elas precisam ser acolhidas. Para isso existem os programas sociais, né? Se a gente não tivesse esse entendimento, não seria possível a gente entender que quem precisa mais precisa que o stado brasileiro financie.

Barbara Martins: É isso. E falando um pouco sobre, indo nessa parte do afeto da política, a pandemia, ela só acelerou um processo que a gente já via acontecendo, que é a individualização do indivíduo, cada vez mais as pessoas se isolando, cada vez mais as pessoas procurando saídas e soluções por si só, procurando a internet, procurando outras formas e a pandemia acelerou esse processo, a IA acelerou esse processo. E o contato humano, de fato, você olhar no olho daquela mulher, você olhar no olho da pessoa e falar: “tô contigo, vamos juntas, ó, tem essa visão, tem essa perspectiva, você tem esses direitos, você não tá sozinha, etc”. É algo que nenhuma IA, nenhuma tecnologia vai trazer pra gente. Então, queria também entender um pouco da sua perspectiva em relação a isso, porque a minha geração ainda tem uma plena lembrança, consciência do que é fazer política, do que é estar ao lado e lutar pelos direitos e reconhecer as nossas mulheres lado a lado sem perpassar pelo uso da internet, sem que isso seja só nesse meio digital. Mas as meninas hoje, as mulheres, elas só... Reconhecem isso como é a vida delas, né? Porque a internet é a nossa vida hoje. Nossa vida tá toda na internet. Então, como que a gente também pode pensar a nossa própria forma de afetuar, né, as nossas relações políticas ainda nesse mundo digital? Porque esse mundo digital tá aí, ele não vai mudar. Não dá pra gente ficar brigando com ele, entendeu? É ficar dando soco em ponta de prego. Então, eu queria entender um pouco de você também.

Janaína Oliveira: A pandemia foi um exercício difícil, né. A gente era governado por um desequilibrado que defendia a contaminação e a morte das pessoas, né? E a gente teve que lidar com isso, né? Todo mundo precisava ficar em casa e quem não podia ficar em casa, que estava em situação mais vulnerável, para além, claro, dos médicos, das enfermeiras, dos técnicos, mas os motoristas de ônibus, uma série de serviços essenciais que não parou, custou muitas vidas de pessoas, né? Nesse processo de não vacinação, de negar a existência de métodos que pudessem, de fato, ter resultado. Eu senti o impacto do Covid. Eu com todo o respeito à tecnologia. Ela é importante, não tô negando. Ela é fundamental, ajuda muito pro avanço do mundo, do país, etc. Mas eu sempre fui uma pessoa que gostava, sempre gostei, sabe? Ter contato, isso, de ter contato com... Mas a geração que tá, que vocês que são mais novinhas, são mais acostumadas com, né, com essas tecnologias, puderam administrar bem. Mas acho que eu achei interessante e surgiu muito movimento, eu acho que faltou um timing pra fazer essa pegada dessa galera, então... Uma galera mergulhou muito nas redes sociais, na internet, como uma forma de dialogar, de construir. Existiu uma série de atividades, de ação, de atividade. Tinha gente que abria live e fazia o seguinte, tipo, vou assistir um filme, você assiste daí, eu vou assistir de lá e de repente as pessoas abriam o microfone. Comentavam algo, dialogavam, vamos beber, e de repente as pessoas estavam falando de política, mas assim, claro, pra além das grandes agendas culturais, que foram importantes, fundamentais, pra, né, pra você desopilar, assistir um show, com a Ivete foi maravilhoso assistir, né?

Janaína Oliveira: Mas, você tinha uma galera fazendo uma série de debates, e eu acho que faltou mais rapidez da gente que milita no movimento, de se incluir mais, pra inclusive dizer: ó, essa pegada aqui não pode deixar de existir, porque é um espaço importante. Hoje você consegue fazer uma reunião. Pô, preciso fazer uma reunião, ouvir a opinião de todas as pessoas hoje. Os secretários estaduais LGBT do PT. Pô, puxa, uma reunião virtual, que era uma prática que a gente não tinha. Tinha uma reunião pra ouvir as pessoas, mas, é... Acho que faltou um pouco disso, mas, ao mesmo tempo, se criou um modo de organização dessa galera mais jovem que é muito virtual. Muito virtual. Então, com todo carinho e respeito, vai ter momento que a gente precisa ir pra rua. Escala seis por um, momento pra gente ir pra rua. Sabe? A defesa do nosso direito trabalhista, previdenciário, de dignidade, é de ir pra rua. Não é só na internet. É importante fazer manifestação na internet porque ela alcança hoje o mundo e o mundo pode saber o que tá sendo debatido naquele momento. Então, trazer, fazer contraponto... Mas precisamos estar na rua, galera. Precisamos estar na rua, galera. E esse contato, essa é uma geração que me preocupa, que talvez, eu não sei se vai vivenciar ou vai ter esse entendimento da importância do afeto. Entendeu? Eu tô aqui, tô com você, tamo na internet, tamo conversando, terminamos a reunião, cada um desliga, não tem mais nenhum contato, entendeu? Vamos lá, desliga o computador e não tem mais contato. Então, eu no meu mundo, você no seu e você no seu e eu não sei... Volto a repetir, eu acho muito importante a tecnologia, mas eu acho mais importante a gente ir pra rua. A gente não pode viver num país em que o parlamento decida o que vai fazer na nossa vida quando quiser e como quiser. Não pode naturalizar isso e não ir pra rua fazer manifestação sobre isso. Os parlamentares têm que entender que o papel deles é defender o interesse do povo, não é defender seu interesse. A gente não pode ter as emendas mandando mais do que a necessidade da política pública. Você tem parlamentar decidindo para onde vai recurso público. E se não tem rua, se não tem manifestação, esses caras não ficam intimidados. Internet é um negócio muito fácil. Entendeu? Isso falando da geração mais jovem, mas para nós mulheres, obviamente, ter esses momentos, a tecnologia foi importante para trocar, para momentos difíceis, de se sentir isolada, sozinha, e de poder dialogar. Cara, a gente sabe que esse foi um período que aumentou as violências, seja contra a população LGBT que é a mais. Então, cara, o que a gente tinha relato de adolescentes e jovens que ainda viviam com os pais, Nossa, e que não podiam ser quem eram, o que tava o tempo todo sendo corrigido. O processo de sofrimento foi um processo difícil de você ouvir, de acompanhar. Quando a gente tá na organização social, a gente recebe muita denúncia. Mas também foi um espaço que muitas mulheres foram, sofreram muita violência. Elas não tinham pra onde ir. Nem ela, nem os filhos. Então, acho que foi um período que não foi só a falta da vacina, ou dizer pras pessoas não se vacinarem, não foi só isso. Muitas violências se apresentaram nesse período, não foi só o desemprego, a fome, a necessidade, um problema social, essa violência. Muitas companheiras relataram violência dos seus companheiros no período da pandemia e não ter para onde ir, e não ter como pedir socorro, ajuda.

Ana Laura: Até porque a maioria das violências acontece dentro de casa. Tem um dado do Anuário de Segurança Pública que foi publicado esse ano com dados do ano passado que mostra que mais de 60% dos casos de feminicídio aconteceram dentro de casa. Então, na pandemia que você estava literalmente presa em casa com seu agressor.

Janaína Oliveira: Uma pandemia que você não conseguia se deslocar para os cantos porque era perigoso você pegar a doença, né? E essa doença ser fatal para uma criança, uma pessoa idosa para você e você não ter para onde ir. Então, é importante a tecnologia, ela é importante, mas... Faltou, vou dizer de novo, o cuidado e o afeto com o outro de como cuidar daquela pessoa. Tá, mas como é que a companheira tá naquele ambiente familiar? Porque se tornou um espaço, um espaço violento de não ter pra onde ir, de não ter o que fazer e de uma dependência financeira e o tempo todo... O tempo todo alguém dizendo, não se vá assim. Gente, na no amazonas foi uma crise de oxigênio. Sabe o desespero de famílias, de grupo na região amazônica, assim? O desespero de familiar pedindo, pelo amor de Deus, eu preciso de 4 mil reais pra comprar um tanque que dure tantas horas e você, sabe? E aí, a solidariedade e o afeto são tão importantes. Pô, a Venezuela foi lá e mandou, cara.

Ana Laura: Enquanto o nosso presidente fazia piada.

Janaína Oliveira: Enquanto o governador fazia graça, sabe? Então, foi uma série de violências casadas com avanço tecnológico, porque isso virou também uma arma para ser usada, né? Uma arma tanto para o bem quanto para o mal, mas de você poder... Precisava fazer uma reunião, precisava ter uma posição política, precisava construir ações, precisava fazer debate ok, lives que foram importantes para as pessoas terem, né? Sobre vários temas, para as pessoas terem... Mas, gente, do outro lado, tinham pessoas que estavam sofrendo violência e não tinham a que recorrer. Não tinha um sistema que garantisse a proteção diante de um processo de pandemia. E não tinha espaços apropriados e adequados, porque você precisava... Se você saía para a rua e fosse para outro canto, você tinha que ficar num processo de isolamento. E nós estamos falando de famílias que tinham dois, três cômodos. Então, foram tantas realidades diversas. Eu não sei se todo mundo já parou para pensar sobre isso. Já escrevi, inclusive, um artigo para fora do país sobre isso. Com essas outras violências silenciosas se deram durante o período da pandemia para a população negra e LGBTQIA+. Então, eu fiquei assustada, eu fiquei muito assustada com os dados. Vote LGBT, quero recomendar quem não leu, Vote LGBT fez uma pesquisa na época da pandemia, acho que é importante dar uma lida, um material, um conteúdo importante, ter escuta de pessoas para saber como elas estavam, se estavam em algum programa social, se tinham conseguido tomar vacina… Foi um exercício, gente, a gente tinha pessoas trans que precisavam para acessar o programa. O programa que, inclusive, foi de R$ 600,00, porque a esquerda defendeu que fosse, né? O Bolsonaro nem queria e a direita defendia R$ 300,00. E as pessoas não terem endereço fixo para registrar ou não ter uma internet, por exemplo. A situação da população trans no Brasil é gravíssima, então, mas é bom o movimento se organizar para, né, aqui, ó, vou te ajudar a te cadastrar, sabe, ou disponibilizar o ponto da minha casa da internet. Teve muito, muito, muito espaço de solidariedade, teve… muito. Pô, juntar a cesta básica para doar, né, então, mas, ao mesmo tempo, teve uma geração que ficou nesse território da internet e permanece até hoje. Eu acho que a gente precisa discutir com essa nova geração a importância, claro, mas discutir a importância de ir pra rua. É na rua que a gente faz a mudança. É na manifestação que a gente mudou tanto a realidade. E é no entendimento da história do país, da história real, concreta, não paralela. A concreta é que a gente vai entender o que a gente viveu que a gente não pode viver no futuro. Por isso, 2026 é tão importante. Se a gente não lembra do passado, a gente não entende o presente e não sabe os efeitos no futuro. Então, estamos juntos nessa caminhada. Vocês são jovens, sei que vocês amam, mas eu vou continuar sendo a pessoa que prefiro olhar olho no olho, poder conversar, ver, dialogar e promover as mudanças a partir daí.

Ana Laura: A gente tava conversando aqui sobre essas questões tecnológicas e eu sou geração Z, então a minha geração já pega muito disso da internet, das redes sociais, dessas mobilizações em rede que, como você falou, são necessárias, mas elas têm um limite, né, de até onde elas conseguem, de fato, chegar e essa questão do olho no olho, a ocupação física, né, dos espaços públicos e dos espaços cívicos também é necessária. E aí eu queria entender, a gente falou dessa questão de pandemia e mesmo num contexto pós-pandemia em que a gente não tá mais nesses isolamentos sociais e distanciamentos obrigatórios, que muita gente inclusive não respeitou, que poderia ter respeitado, que a gente tá nem falando de pessoas que tiveram que sair para trabalhar e não tiveram escolhas. Muitas pessoas não respeitaram esse período por escolha e enfim, negligência também. Mas agora pensando no pós-pandemia, as questões de combate a violência contra a mulher e contra a população LGBT também não estão avançando tanto assim, né? A gente tem avanços, a gente tem caminhadas acontecendo, mas os números de violência contra essas populações ainda são muito alarmantes. Então, Janaína, eu queria te perguntar, para além dessas mobilizações em rede social e também para além dessas mobilizações na rua, que políticas públicas você sente que ainda faltam para as mulheres e para as pessoas LGBT, para as pessoas trans, para todas as comunidades vulneráveis aqui do Brasil?

Janaína Oliveira: Para a população LGBTQIA+, falta a política de Estado. Porque uma coisa é a política de governo. Porque nós não temos uma política de Estado. O que permitiu que o governo Bolsonaro, numa canetada, quando ele disse lá, acabou o politicamente correto, ele ia assim… [estalo]. Pode acabar com toda uma construção de luta, que não é só de quem está na estrutura de governo, mas do movimento social que lutou muito para alcançar esse espaço, estabelecer política de Estado. Acho que a esquerda peca nisso quando a gente não estabelece uma política de Estado. Porque é isso, né? Importantes políticas. Com o Lula a gente voltou a ter participação social, voltou a dialogar, passou a ser visto como parte da população, criou-se estruturas, fez investimentos. Isso é importante, mas a gente precisa estabelecer uma política de Estado.

Barbara Martins: Como a Toda é uma organização que a gente atua na educação cidadã, queria que você trouxesse então pra gente qual que é a diferença, o que seria uma política de governo e uma política de Estado? E exemplos trazendo aí dessa perspectiva da LGBT.

Janaína Oliveira: Nas mulheres você tem, por exemplo, a política de Estado. Você tem lei que ampara as ações. A Bolsa Família é lei. Então, isso é uma política de Estado concreta. Pô, Janaina, mas a gente tem um congresso que tá cada vez pior. Então, galera, vamos ter responsabilidade na hora de escolher quem nos representa. Porque essas pessoas que vão pro espaço são as que vão impedindo que você consiga avançar. Então, eu não sou daquelas que acha que criminalizar, só criminalizar vai resolver o problema. Não vai resolver o problema, você precisa reeducar. Então, quando você traz, por exemplo, processo de acolhimento, a gente tem a Casa Mulher Brasileira, a gente precisa ter espaço de acolhimento que também o Estado brasileiro assuma a responsabilidade. Não pode ser só uma tarefa do movimento social. Não posso só investir um valor inicial no movimento, e achar que o movimento vai dar conta o resto da vida de um processo de casa que acolha todo mundo. Não dá. Tem que ser uma política de Estado. O Estado brasileiro tem que ter responsabilidade sobre o cuidado dessas pessoas. Então, isso é um exemplo um pouco do que eu trago, do que a gente precisava ter como política de Estado consolidada pra população LGBTQIA+. É avanço importante? Tem, eu não nego. Tem ações que são importantes. A gente tava... No governo Bolsonaro, com a política totalmente terminada, no governo Lula você retoma. Mas a gente precisa ter um avanço mais rápido do que a gente precisa executar. Porque a gente não pode mais ficar refém. A democracia nos permite escolher nossas representações. E nós tivemos uma representação que foi responsável pela ampliação de desemprego, ampliação de violência, voltar o mapa da fome, etc, etc. Então, sabe, isso tem consequências. Se você estabelece uma política de Estado, você tem uma outra vertente. Claro, isso não impede que o presidente vá lá, dependendo de quem seja, deixe de investir menos, deixe de investir menos naquele tema e passe a investir mais em, sei lá, armas. Porque eu não usei outra coisa que se comprou muito naquela época. Vou manter a fala no ambiente familiar. Então... Como é que você vai estabelecer uma política se eu não tiver o entendimento de que eu preciso consolidar essa política a ponto de que essa população não fique vulnerável a um próximo governante que não tenha compromisso com direitos humanos, que não tenha compromisso com a vida, que não acredite no bem-estar, que não acredita na diversidade, que não respeite todo mundo. Então, e assim, os dados aumentam. Primeiro que o Brasil é um país que que bom que a gente pode ter registro de dados. Apesar de que os dados para a população LGBTQIA+, são dados muito frágeis, porque a maioria deles são feitos pelo movimento social. Então, quando o movimento social recebe uma informação de que tem uma travesti que foi morta, violentada, e que a família quer enterrar com um nome que ela não se reconhece mais, com uma identidade que ela não se reconhecia mais, colocando terno. Então, você vê que até depois da morte, a violência permanece construindo uma identidade que vai empurrando os nossos corpos para... Uma negação de existência assustadora.

Ana Laura: E até os bancos de dados de violência contra a mulher não tem dados específicos sobre mulheres trans, né? Você não sabe se tem mulheres trans sendo consideradas nesses dados, se são todas cis, não tem essa informação, então isso também faz essa subnotificação de muita coisa, né?

Janaína Oliveira: Os dados de segurança que são produzidos também pelos estados, na Bahia, por exemplo, você não tinha esse recorte nem de orientação sexual e nem de identidade de gênero. Então, eu tô trazendo um exemplo aqui clássico. O Brasil é um país que registra muito dado, mas, ao mesmo tempo, é o país que, por ser um país que registra dados, também acaba ganhando títulos nada positivos. Então, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais. A gente sabe que tem outros países que são extremamente violentos e que não é seguro pra população LGBT+ se quer ir lá. Porque tem leis que executam. Mas, como o Brasil registra muito dados, você percebe um... Gente, nós estamos falando de pessoas que são violentadas, que são mortas só por amarem uma pessoa do mesmo sexo, para as pessoas entenderem. Nós estamos falando de pessoas que têm uma identidade que elas não se reconhecem, porque você estabeleceu na ciência a ideia do gênero masculino e feminino, e a pessoa não se reconhecendo naquela identidade, você é morta. Eu sempre falo isso para as companheiras do movimento trans, que você tem um processo de extermínio das pessoas trans no Brasil. Porque não tem pior coisa, né? Para um sistema patriarcal, sexista, machista, uma pessoa que tem uma identidade que vai divergir daquilo que ele entende como certo. Então, quem manda? É o homem, é o macho alfa. Pô, gente, essa semana teve um encontro, inclusive uma figura artística, que eu nem vou citar o nome desse cara, de homens de mais de 40 anos pra cima, fazendo um discurso sobre qual é o papel familiar, qual é o papel da mulher, em pleno século XXI. E o que me preocupa é que a gente tá tendo, e aí você falou da geração Z, mas a gente tá tendo uma geração Z que é também uma geração Z conservadora. A gente hoje fala, pô, as pessoas vão, hoje as pessoas vão pra internet pra dizer assim, eu sou LGBT de direita? Eu sou LGBT, quem é mais conservador. Aí eu fico olhando, cara, tu és o cara que tá num sistema que não te reconhece como indivíduo, como pessoa, como ser de direito, tá defendendo um sistema que prefere que você morra, a que você seja quem você é. E aí você não entender, não é você ser, as pessoas podem ser o que elas quiserem, mas eu tenho que entender o seguinte, eu vou ter quem defende a minha existência e eu vou ter quem é contra a minha existência. Não dá pra se aliar quem é contra a existência. Nós não somos intolerantes como as pessoas também colocam, não tem intolerância. Mas uma coisa é você dialogar com divergência de ideia e de pensamento. Baseado em conhecimento científico, histórico, tem todo entendimento no campo do estudo, das ideias. Outra coisa é ser. “Ah, eu acho que, né?” E aí eu acho que você começa a fazer um discurso de ódio, promover. Então, eu com muito carinho que eu tenha depois da pandemia, intensificou o ódio e a maldade que já tinha muito forte no indivíduo. Por isso que é importante, né? É importante denunciar. Então, pra quem é vítima de violência aí, seja LGBTQIA+, liga pro Disque 100. Se você é mulher, liga pro Disque 80, pede ajuda. Não fica nesse ambiente, não. É, não fica nesse espaço de ambiente não, não deixa a violência tomar conta da sua vida, porque a vida é um bem tão precioso e infelizmente tem gente que não valoriza.

Barbara Martins: Exato.

Janaína Oliveira: Eu, pelo menos, posso dizer que estou do lado certo da história, que tem seus percalços, seus defeitos, suas dificuldades, mas estou do lado certo da história, que é do lado do direito à vida. A vida tem que ter sentido do início ao fim, não pode ser só um pedaço dela. Então, não é fácil. A gente vai ter de novo ou de volta, como são as eleições, ou seja, a redução da maioridade penal, tantos outros temas que não resolvem o sistema. Você vê um candidato que dá entrevista e faz piada. “Pô, quando você vê um homem que vai roubar, que cor você pensa que essa pessoa? Quando você vê um médico, que cor você pensa". Eu tô falando de pessoas assim, tu, no Congresso. Então, chamar a atenção das pessoas pra responsabilidade. E dizer que eu gostei da ideia daqui, viu? Eu tô fazendo um bate-papo muito tranquilo, muito gostoso, da gente poder dialogar, falar um pouco... É importante esse espaço, acho que pra dar voz às mulheres, pra gente poder dialogar sem precisar só falar dos momentos difíceis, mas também falar dos momentos importantes da revolução, da luta e do comprometimento.

Barbara Martins: Exatamente. Agradeço muito você ter aceitado esse convite, estar nessa trajetória aí com a gente. É muito importante ouvir você. E educação cidadã não é o passo a passo, não é o livreto de o que você deve fazer, os seus direitos. É isso também, mas educação cidadã é a gente se reconhecer no espaço enquanto seres de direito. Então, enquanto pessoas que devem estar aqui, enquanto pessoas que devem viver, que merecem viver e que querem fazer que outras mulheres, que outras pessoas LGBTs também possam viver. Então, para nós foi incrível te ouvir, ouvir sua trajetória e assim, vamos continuar, né? Quero que cada vez mais a gente esteja ocupando espaços e que você possa estar aí contribuindo muito mais para as nossas políticas, para as nossas mulheres, para as nossas Afro LGBT ocuparem esse espaço que ainda são muito invisibilizadas. Então, é isso.

Ana Laura: Eu agradeço muito também, foi ótima essa conversa e a gente pensa em todas essas questões complexas que acontecem, acho que o próprio processo histórico mostra como conforme os avanços vão acontecendo, essas resistências mais conservadoras vão surgindo junto também, né? Então, o que nos toca é continuar resistindo, lutando pelas nossas vidas, pelos nossos direitos e, como a Bárbara falou, lutando por uma educação cidadã que possa informar as pessoas de quais são os direitos de fato que elas têm, né? Porque eu acho que muito da falta de articulação social que a gente tem, até das novas gerações, é pela falta de conhecimento mesmo, né? De acesso ao saber do que é que eu tenho direito e, a partir disso, lutar por ele. Então, que a gente possa ter mais diálogos, mais conversas, usar a comunicação como essa ferramenta de transformação social para que a gente possa continuar caminhando para um mundo que seja menos violento e mais acolhedor à diversidade das pessoas.

Janaína Oliveira: Obrigada Ana e Bárbara. E vamos à luta, galera. Fazer aí o que a gente precisa fazer. Mas, parabéns pela iniciativa, pelo espaço, vocês... Ousaram. As mulheres sempre são ousadas, né? Vocês ousaram nesse espaço para a gente poder dialogar, falar um pouco do que a gente pensa, do que a gente deseja e do que é preciso também. E aprender também, né? Ouvir também, aprendendo o que é necessário e esperar da juventude aí essa garra e revolução para continuar fazendo a mudança que a gente tanto precisa.

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A internet foi feita para os homens, com Janara Sousa