O que acontece quando o "virtual" invade o físico: A realidade da Violência Digital

(Nota: Este material foi traduzido e adaptado da entrevista original em inglês realizada entre Carolline Querino e Dina Chaerani)

‍ ‍

Nesse papo, a nossa diretora de Tecnologia e Pesquisa, Carolline Querino, recebe Dina Chaerani, fundadora da organização SRHR Barbie, para discutir o custo real do ativismo digital para mulheres no Sul Global. Dina compartilha sua experiência sobrevivendo a uma sequência de doxxings e ataques coordenados na Indonésia, enquanto critica as estruturas coloniais de financiamento internacional. A entrevista é um chamado à ação para que a segurança digital seja tratada como infraestrutura feminista e para que o conhecimento técnico seja democratizado através da linguagem popular.

Alerta de gatilho: Esse texto faz menção a uma situação de violência sexual sem fazer nenhum tipo de descrição.

Mini guia de conceitos:

Doxxing: Doxxing (ou doxing) é a prática de pesquisar e divulgar informações pessoais privadas, a exemplo de dados de identificação pessoal, sobre um indivíduo ou organização na internet sem o seu consentimento. Derivado de "dropping docs" (postar documentos), esse crime tem como objetivo assediar, intimidar, humilhar, causar danos financeiros e psicoemocionais à vítima.

Sul Global: É um termo geopolítico e econômico que agrupa países em desenvolvimento ou emergentes, na sua maioria localizados no hemisfério sul e zonas tropicais, que sofreram (e ainda sofrem) com processos de colonização, desigualdade social e busca por maior influência internacional.

Carolline Querino: Recentemente você foi vítima de doxxing e, ao falar sobre isso, você mencionou que o assédio contra a SRHR Barbie, deixou de ser sobre o trabalho que você faz e se tornou algo pessoal e direcionado explicitamente a você, onde os ataques eram sexualizados e desmoralizantes. Fale um pouco sobre o que é a SRHR Barbie e como esse tipo específico de violência difere de um conflito online comum.

Dina Chaerani: SRHR é uma abreviação para Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos. Uso a persona da "Barbie" para normalizar e desmistificar o tema para meninas e mulheres do meu país. As pessoas acham que a Barbie tem que ser branca, loira e ocidental, mas a Barbie também pode ser marrom, baixa e da Indonésia. Uso o storytelling digital para quebrar relatórios de grandes ONGs e torná-los interessantes para as gerações mais jovens. Sobre o assédio: nunca foi apenas um "conflito". Um conflito é quando alguém desafia suas ideias. O que eu vivi foi muito além disso. Tornou-se algo sobre o meu corpo, minha escolha, meu caráter e meu valor, em vez do conteúdo do meu trabalho. Como uma mulher muçulmana na Indonésia falando sobre educação sexual compreensiva usando perspectivas do Alcorão, eles me atacam dizendo coisas como: "Como uma mulher muçulmana pode falar de sexualidade?" Eles me chamam de "dona do inferno" e tentam me envergonhar dizendo que meus pais deveriam ter vergonha de mim.

Carolline Querino: Essa experiência mudou sua abordagem sobre segurança digital e física?

Dina Chaerani: Honestamente, mudou tudo. A segurança digital parece abstrata até que algo assim aconteça. Eu tenho o privilégio de ter amigos em organizações de segurança digital que me ofereceram ajuda, mas para a maioria das criadoras de conteúdo, não há passos regulamentados sobre o que fazer primeiro quando o doxxing acontece. Como não estou na Indonésia agora, me sinto um pouco mais segura, mas me pergunto o que aconteceria se eu estivesse lá. Agora sou muito mais cautelosa. Às vezes posto apenas em contas secundárias ou grupos privados enquanto "baixar a poeira". Fui usada como bode expiatório para desviar a atenção de outros problemas na Indonésia. O efeito é louco: viralizei no Threads com mais de 50 mil comentários falando de mim.

Carolline Querino: Muitas vezes as pessoas não entendem que o que acontece no online impacta diretamente a vida física. A sua saúde emocional foi afetada?

Dina Chaerani: Eu não dormi por uma semana. Tive que tomar melatonina todos os dias. Foi louco. Eu não queria comer, perdi peso e acabei negligenciando meu parceiro e tudo ao redor porque estava vivendo nesse "looping". E o pior é que você é atacada por tudo, até pelo que veste. Como eu costumava usar hijab e decidi tirar há sete anos, eles usam isso para dizer que virei "liberal" por morar na Holanda. É apenas mais uma pedra no caixão para tentar destruir minha imagem pessoal.

Carolline Querino: Isso nos traz à questão da responsabilidade sistêmica. As plataformas não fazem nada para prevenir esses crimes porque veem esse tipo de assédio como "engajamento". O que você gostaria que as plataformas digitais fizessem para evitar que isso se tornasse um ataque à participação feminista?

Dina Chaerani: Primeiro, precisamos parar de tratar a "resiliência" como a solução. Não temos que ter "pele grossa". As plataformas têm responsabilidades concretas. Precisamos de respostas mais rápidas e conscientes para assédio coordenado e doxxing. As plataformas precisam de sistemas de moderação que entendam a violência de gênero em vários idiomas e gírias locais, não apenas insultos óbvios em inglês. Se elas conseguem criar IA para tradução em nove línguas que alinham até o movimento da boca, por que não conseguem traduzir a linguagem do ódio? É intencional. Além disso, órgãos internacionais como a ONU devem financiar infraestruturas de proteção: suporte jurídico, saúde mental e resposta a crises. Eles precisam financiar as organizações feministas "como se quisessem que vencêssemos".

Carolline Querino: Após passar por isso três vezes, como você consegue se recompor e reivindicar o espaço digital novamente?

Dina Chaerani: Reivindicar o espaço significa recusar a ideia de que o abuso é normal. Se eu sair, eu concordo com eles (os agressores) que mulheres como eu não deveriam existir nas redes sociais. Não quero estar desse lado da história. O que me mantém é o apoio das pessoas que nunca conheci, dizendo que meu trabalho com a SRHR Barbie as ajudou a acessar contracepção ou aborto seguro na Indonésia. Isso me lembra por que comecei. Quando eu tinha 13 anos e sofri violência sexual pela primeira vez, não havia um espaço seguro online para perguntar nada. Minha professora disse que, se eu não lembrava quem fez, era porque eu tinha gostado. Eu trabalho (também) para curar a minha versão de 13 anos.

Carolline Querino: Isso é muito poderoso. Não perca de vista a importância das pessoas que te ouvem. Agora, sobre a conferência Women Deliver 2026 de que vamos participar: o que a "responsabilidade coletiva" significa na prática para um evento global que aborda temas de gênero como esse?

Dina Chaerani: Não quero que fique apenas nos painéis, onde todos concordam e depois seguem a vida. Se a conferência é séria sobre justiça de gênero, os direitos digitais e a segurança online devem ser tratados como infraestrutura feminista central. Isso significa colocar a violência facilitada pela tecnologia na agenda principal, centrar as vozes de jovens feministas, jornalistas e pessoas do Sul Global que têm a maior exposição e a menor proteção. E, o mais importante: financiamento. Os doadores precisam parar de enviar milhões apenas para uma única organização gigante que depois faz "outsourcing" para as pequenas. 20 milhões de euros fariam uma diferença total se fossem distribuídos para grupos locais. Isso é apenas outra versão de colonização.

Carolline Querino: Para encerrar, há algo mais que você gostaria de dizer?

Dina Chaerani: Eu amo a ideia de descolonizar a linguagem. É por isso que uso Instagram e TikTok. O conhecimento não pode ser guardado. Um relatório de 180 páginas da ONU em inglês não serve para o jovem na parte leste da Indonésia que não fala inglês. Eu quebro o currículo, módulo por módulo, de forma simples. A representação nos grandes espaços ainda é muito difícil; eles escolhem alguém que fala bem em público para dar o "check" na diversidade, mas não chamam quem está realmente vivendo o problema, como as meninas no Afeganistão ou nas ilhas que estão afundando pelo clima. O espaço digital me permite colaborar com outros jovens de forma fluida, sem a estrutura rígida da ONU.

Aqui na Toda, nós - assim como a Dina - acreditamos no acesso fácil e livre a educação de gênero! Por isso, disponibilizamos a Maria Valente gratuitamente para todas as meninas e mulheres do Brasil. Se você está em dúvida se algum tipo de situação que você viveu online ou offline é crime ou se você gostaria de ajuda, entre em contato com a Maria pelo +55 45 3010-1260.

Próximo
Próximo

Direitos, território e o peso desigual da crise climática sobre mulheres indígenas