Direitos, território e o peso desigual da crise climática sobre mulheres indígenas
Texto por: Érika Campos
Quando chega o Dia dos Povos Indígenas, é comum vermos homenagens, imagens bonitas e discursos sobre cultura. Mas, na prática, a realidade dos povos indígenas no Brasil está longe de ser celebrada.
Falar dessa data exige ir além do simbólico. Exige olhar para os conflitos por terra, para a violência e para a dificuldade de garantir direitos que, embora existam na lei, ainda não chegam de forma real na vida dessas pessoas.
Dentro desse cenário, as mulheres indígenas vivem uma realidade ainda mais difícil. Elas não enfrentam apenas a desigualdade de gênero, mas também o racismo e a violência que surgem quando seus territórios são invadidos e explorados. A proposta do Projeto de Lei 1020/2023, da deputada Célia Xakriabá, que cria o Dia Nacional de Combate à Violência contra Mulheres Indígenas, parte justamente desse reconhecimento. Ela mostra que essa violência não acontece por acaso. Ela está ligada a um contexto maior, onde há disputa por terra, presença de atividades ilegais e pouca proteção do Estado.
E quando o território é ameaçado, a violência aumenta. Em regiões com garimpo ilegal, extração de madeira e conflitos fundiários, os casos de agressão contra mulheres indígenas se tornam mais frequentes. Entre 2014 e 2023, a maioria dos registros envolveu violência física, e os casos de violência sexual cresceram de forma alarmante. Um dado que chama ainda mais atenção é que uma parte significativa das vítimas são meninas e adolescentes. Isso mostra que não estamos falando de situações isoladas, mas de um ambiente onde a vulnerabilidade é constante.
Essa mesma lógica aparece quando falamos da crise climática. Embora seja um problema global, seus impactos não são iguais para todo mundo. Segundo o IPCC, povos indígenas estão entre os mais afetados, justamente porque suas vidas estão diretamente ligadas à natureza. E, dentro desses povos, são as mulheres e as crianças que sentem esses efeitos de forma mais intensa. Quando a floresta é destruída, não é só o meio ambiente que sofre. Faltam alimentos, a água se torna escassa, a saúde se fragiliza e a insegurança aumenta.
Ao mesmo tempo, existe uma contradição difícil de ignorar. São justamente os territórios indígenas que mais preservam a natureza. A Amazônia, o maior bioma tropical do planeta, continua existindo em grande parte porque esses povos mantêm uma relação de cuidado com a terra. Onde há presença indígena, o desmatamento é menor. Isso mostra que proteger esses territórios não é apenas uma questão ambiental, mas uma necessidade para a vida no planeta.
E essa proteção também passa pela valorização da cultura. Como diz Eliane Potiguara, “Enquanto houver floresta, haverá vida. E enquanto houver vida, haverá luta.” Essa frase não fala só de resistência. Ela fala de um modo de viver que entende a natureza como parte da existência, e não como algo a ser explorado até o limite.
Por isso, falar sobre o Dia dos Povos Indígenas não pode ser apenas lembrar tradições ou celebrar identidades. É reconhecer que ainda existe uma disputa real por território, por direitos e por dignidade.
E, no centro dessa discussão, estão as mulheres indígenas. Elas carregam o impacto das desigualdades, mas também sustentam a preservação cultural e ambiental. Ignorar isso é ignorar uma parte essencial da realidade brasileira.
Se existe um caminho possível para enfrentar a crise climática e construir uma sociedade mais justa, ele passa, necessariamente, por ouvir, proteger e reconhecer os povos indígenas e, especialmente, as mulheres indígenas.